CARTA ABERTA ÀS MULHERES E MÃES DOS GENOCIDAS – por Adão Cruz

 

CARTA ABERTA ÀS MULHERES E MÃES DOS GENOCIDAS

por Adão Cruz

 

Pintura de Adão Cruz

 

Minha Senhoras

Estava eu a jantar, quando vi no telejornal, pela enésima vez, as imagens do bombardeamento sobre a Faixa de Gaza. Imagens da vossa bravura, imagens da coragem e determinação dos vossos maridos. Corpos carbonizados, dilacerados, esventrados, cabeças estouradas, pedaços de vida feitos em pedaços de carne morta. Dezenas, centenas, milhares de pessoas abatidas e muitas outras gravemente feridas enquanto o diabo esfrega um olho. Dezenas, centenas, milhares de inocentes que deus sacrifica às mãos de quem tanto reza. Milhares de refugiados a caminho da longínqua esperança, olhos postos no fictício horizonte da solidariedade das nações, ausentes, indiferentes e coniventes. Dezenas, centenas, milhares de olhos brutalmente arrancados à luz, entre eles olhitos de crianças de corações pequeninos a bater dentro do peito, iguais ao coraçãozito dos vossos filhos e netos quando batem mais apressados, lembram-se? Quando via estas imagens, corri ao quarto dos meus filhos e dos meus netos e dei com eles todos esquartejados, cabeças para um lado, pernas e braços para outro. O quarto era um mar de sangue! Felizmente o pesadelo durou apenas alguns segundos, mas fiquei com o cérebro esburacado durante toda a noite. Nunca tinha reparado bem, mas os meus filhos e os meus netos eram iguaizinhos a todos aqueles homens e crianças. Não sei o que me deu, mas fiquei aterrorizado. Tive tanto medo, minhas Senhoras! É que a seguir a estas tenebrosas imagens, aparecem de imediato na TV, posando sorridentemente para uma espécie de retrato de comunhão solene uma catrefa de monstros, e eu pensei que estava no inferno rodeado de demónios. Aquele medonho friso de máscaras humanas, tendo como sombria antecâmara a ignara maciez da face de um tal porta-voz, vomitando com línguas de fogo a garantia da divulgação do resultado de uma investigação em curso. Deu-me a impressão de que ele estava em minha casa, ali na minha frente, que tinha arrombado a minha porta, Senhoras! Contudo, o pior é que aparecem, logo a seguir, os vossos maridos com aquela cara de…como lhes parecem as caras dos vossos maridos, minhas Senhoras? A mim, não é bem a cara que me mete medo, mas a prepotência, a arrogância, a crueldade, o desumano unilateralismo assente na propalada, permanente e abjecta supremacia militar de que eles se vangloriam, ainda que com um ar um tanto despeitado por não os terem deixado acabar as suas tarefas. Mas não se preocupem demasiado minhas Senhoras, eles dizem-se arrependidos do seu miserável pecado, rezam a deus, pedem perdão e fazem por cumprir religiosamente a penitência bombardeando de outro modo e bombardeando melhor. Minhas Senhoras, num daqueles momentos mais íntimos perguntem aos vossos maridos quantas criancinhas é preciso matar para atingir o tal desenvolvimento tecnológico que permita assegurar que as forças de amanhã continuarão a dominar. E se, com umas pitadinhas daquela coisa que vocês inventaram para os desiludidos da disfunção eréctil, puderem arrancar-lhe uns segredozitos, vejam se descobrem quantas aldeias é preciso arrasar por esse mundo fora para concretizar as ameaças contra a segurança das nações soberanas, quantos milhares de mortos e estropiados é preciso fabricar para atingir os tais milhares de milhões de dólares necessários ao reforço da hegemonia imperialista, unilateral e diabólica. Quantas guerras é necessário fabricar para tentar preservar a supremacia militar face a todos os adversários que lutam por um mundo multipolar, mais humano e mais justo. Quantas televisões é necessário silenciar, quantas megabombas é preciso lançar sobre todos os Iraques do mundo para atingir a suprema censura planetária. Quantas Europas é preciso fabricar, perverter e subjugar, de modo a empanturrá-las de aviões, mísseis, tanques e canhões até se desfazerem num lamaçal de miséria e covardia. O canal da Mancha ali tão perto! Como é que eu não haveria de correr ao quarto dos meus filhos? Eu não tenho medo deles propriamente ditos nem das suas metralhadoras. Até me parecem daquelas pessoas que ao descongelarem, isto é, ao perderem o poder, se desfazem em covardia. Eu tenho medo é da sua monumental carapaça de ódio, cinismo, crueldade, arrogância e desumanidade. Minhas Senhoras, quando estiverem com eles num daqueles chás em que vocês falam dos milhares de milhões de dólares necessários à pesquisa e construção do tal muro e do sistema de defesa antimíssil e passam a mão pelo lombo dos cãezinhos numa manifestação de sensibilidade e ternura, lembrem-lhes o pequenino dorso das criancinhas que eles ajudam a queimar todos os dias em bombardeamentos como os de Gaza. E façam com que eles vejam, ainda que ao de leve, a imagem virtual dos seus próprios filhos – aqueles que lhe dão um beijinho todas as noites – no meio dos ensanguentados destroços do chão tapetado de mortos e feridos e da caravana de refugiados para lugar nenhum. Porém, na fotografia também há mulheres ou maridas. Secretárias, comissárias, presidentes. Não são só os vossos maridos. É-me extremamente difícil não ter medo delas. Não é fácil manter-me sereno porque elas encarnam perfeitamente o papel que me parece ser o diabo ou da mulher do diabo. O diabo tem mulher ou não seja ele o pecador major. Não é como deus! Digam-me se eu tenho ou não tenho razão, mas sempre vi a mulher do diabo com uns olhos e um sorriso assim! Não sei o que elas têm dentro do peito, se é uma pedra, um escorpião ou se não tem mesmo nada. Porém, é da sua eventual relação com o diabo que eu tenho medo, da autoridade com que o diabo as possa ter investido, na cumplicidade e na planificação da fábrica de vítimas, na esterilização de sentimentos a que ele as submeteu e dos estratagemas que na sua cartilha se destinam a tornar adversários políticos e militares do próximo século todos os povos que a elas não se submetam. Minhas Senhoras, eu tinha muito mais coisas a conversar convosco, até porque, a despeito do vosso papel e da vossa posição nesta guerra miserável e nauseabunda, me custa aceitar que fazem parte duma família de monstros. Naquele momento do telejornal pensei dirigir-me a vós, pois convenci-me de que eu e as Senhoras éramos vítimas, ou melhor, pensei que os nossos filhos e netos se encontravam esfacelados no meio dos destroços causados pelas bombas dos vossos maridos e daqueles hediondos amigos que eles arranjam. Pensem, minhas Senhoras, o que era ver o vosso filho, a vossa filha, o vosso neto, a vossa neta, esquartejados, cabeças para um lado, membros para outro, esventradas, exangues, sem qualquer brilho nos olhos nem sopro de vida, com o tal coraçãozito palpitante que tantas horas de felicidade vos deu, golpeado irremediavelmente, parado para sempre e sem nunca mais poder dizer:

mãe, gosto tanto de ti!

 

 

2 Comments

  1. Um texto cheio de dor e apelo à razão…. mostra bem como é estarmos a assistir a um genocídio em direto…. impossível alegar que não sabíamos…. impossível olhar para o lado.

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